Martinho mais que depressa dirigio-se á casa da policia, e apresentando ao chefe todos esses papeis, requereo-lhe que mandasse entregar-lhe a escrava. O chefe em vista dos documentos de que Martinho se achava munido, entendeo que não lhe era possivel denegar-lhe o que pedia, e expedio ordem por escripto, para que lhe fosse entregue a escrava em questão, e deo-lhe um official de justiça e dous guardas para effectuarem a diligencia.
Foi portanto o Martinho, que munido de todos os poderes e competentemente autorisado pela policia apresentou-se com sua escolta á porta da casa de Isaura, para arrebatar a Alvaro a cubiçada presa.
—Ainda este infame!—murmurou Alvaro entre os dentes ao ver entrar o Martinho.—Era um rugido de cólera impotente, que o angustiado mancebo arrancára do intimo da alma.
—Que deseja de mim o senhor?—perguntou Alvaro em tom secco e altivo.
—Vª. Sª., que bem me conhece,—respondeo Martinho,—já pode presumir pouco mais ou menos o motivo, que aqui me traz.
—Nem por sombras posso adivinhal-o, antes me causa estranheza esse apparato policial, de que vem acompanhado.
—Sua estranheza cessará, sabendo que venho reclamar uma escrava fugida, por nome Isaura, que não ha muito tempo foi por mim apprehendida no meio de um baile, no qual se achava Vª. Sª., e devendo eu envial-a a seo senhor no Rio de Janeiro, Vª. Sª. a isso se oppôz sem motivo algum justificavel, conservando-a até hoje em seo poder contra todo o direito.
—Alto lá, senhor Martinho! penso que não é pessoa competente para dar ou tirar direito a quem lhe parecer. O senhor bem sabe, que eu sou depositario dessa escrava, e que com todo o direito e consentimento da autoridade a tenho debaixo de minha protecção.
—Esse direito, se é que se pode chamar direito a uma arbitrariedade, cessou, desde que Vª. Sª. nada tem allegado em favor da mesma escrava. E demais,—continuou apresentando um papel,—aqui está ordem expressa e terminante do chefe de policia, mandando que me seja entregue a dita escrava. A isto nada se póde oppôr legalmente.
—Pelo que vejo, senhor Martinho,—disse Alvaro depois de examinar rapidamente o papel que Martinho lhe entregára,—ainda não desistio de seo indigno procedimento, tornando-se por um pouco de dinheiro o vil instrumento do algôz de uma infeliz mulher? Reflicta, e verá que essa infame acção só pode inspirar asco e horror a todo o mundo.