Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço attrahio por sua graça, gentileza e vivacidade toda a attenção e sollicitude da boa velha.

Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama favorita e a creada fiel da esposa do commendador. Este, que como homem libidinoso e sem escrupulos olhava as escravas como um serralho á sua disposição, lançou olhos cobiçosos e ardentes de lascivia sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistio ella ás suas brutaes sollicitações; mas por fim teve de ceder ás ameaças e violencias. Tão torpe e barbaro procedimento não pôde por muito tempo ficar occulto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeo mortal desgosto.

Acabrunhado por ella das mais violentas e amargas exprobrações, o commendador não ousou mais empregar a violencia contra a pobre escrava, e nem tão pouco conseguio jámais por outro qualquer meio superar a invencivel repugnancia, que lhe inspirava. Enfureceo-se com tanta resistencia, e deliberou em seo coração perverso vingar-se da maneira a mais barbara e ignobil, acabrunhando-a de trabalhos e castigos. Exilou-a da sala, onde apenas desempenhava levianos e delicados serviços, para a senzala e os fragueiros trabalhos da roça, recommendando bem ao feitor, que não lhe poupasse serviço nem castigo. O feitor porém, que era um bom portuguez ainda no vigor dos annos, e que não tinha as entranhas tão empedernidas como o seo patrão, seduzido pelos encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, só lhe dava caricias e presentes, de maneira que dahi a algum tempo a mulata deo á luz da vida a gentil escravinha, de que fallámos. Este facto veio exacerbar ainda mais a sanha do commendador contra a misera escrava. Expellio com improperios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou a mulata a tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento, que em breve a precipitou no tumulo, antes que pudesse acabar de crear sua tenra e mimosa filhinha.

Eis ahi debaixo de que tristes auspicios nasceo a linda e infeliz Isaura. Todavia como para indemnisal-a de tamanha desventura, uma santa mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre creança e veio amparal-a á sombra de suas azas caridosas. A mulher do commendador considerou aquella tenra e formosa cria como um mimo, que o céo lhe enviava para consolal-a das angustias e dissabores, que tragava em consequencia dos torpes desmandos de seo devasso marido. Levantou ao céo os olhos banhados em lagrimas, e jurou pela alma da infeliz mulata encarregar-se do futuro de Isaura, creal-a e educal-a, como se fosse uma filha.

Assim o cumprio com o mais religioso escrupulo. Á medida, que a menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe ella mesma ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde procurou-lhe tambem mestres de musica, de dança, de italiano, de francez, de desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se emfim em dar á menina a mais esmerada e fina educação, como o faria para com uma filha querida. Isaura por sua parte, não só pelo desenvolvimento de suas graças e attractivos corporaes, como pelos rapidos progressos de sua viva e robusta intelligencia, foi muito além das mais exageradas esperanças da excellente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquella joia, que ella dizia ser a pérola entrançada em seos cabellos brancos.—O céo não quiz dar-me uma filha de minhas entranhas,—costumava ella dizer,—mas em compensação deo-me uma filha de minha alma.

O que porém mais era de admirar na interessante menina, é que aquella predilecção e extremosa sollicitude de que era objecto, não a tornava impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com seos parceiros de captiveiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava a natural bondade e candura do coração. Era sempre alegre e boa com os escravos, docil e submissa com os senhores.

O commendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para com a mulatinha, capricho, que qualificava de caduquice.

—Forte loucura!—costumava exclamar com accento de commiseração.—Está ahi se esmerando em crear uma formidavel tafulona, que lá pelo tempo adiante ha-de-lhe dar agoa pela barba. As velhas umas dão para rezar, outras para ralhar desde a manhã até á noite, outras para lavar cachorrinhos ou para crear pintos; esta deo para criar mulatinhas princezas. É um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade; mas ... que lhe faça bom proveito; ao menos emquanto se entretêm por lá com o seo embelego, poupa-me uma boa duzia de impertinentes e rabugentos sermões... Lá se avenha!...

Poucos dias depois do casamento de Leoncio, o commendador, com toda a familia, inclusive os dous novos desposados, transportou-se de novo para a sua fazenda de Campos. Foi então, que o commendador entregou a seo filho toda a administração e uso-fructo daquella propriedade, com toda a escravatura e mais acessorios nella existentes, declarando-lhe que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado queria passar tranquilamente o resto de seos dias, livre de afazeres e preoccupações, para o que bastavão-lhe com sobegidão as rendas, que para si reservava. Feita em vida esta magnifica dotação a seo filho, retirou-se para a côrte. Sua esposa porém preferio ficar em companhia do filho, o que foi muito do gosto e approvação do marido.

Malvina, que apezar da sua vaidade aristocratica tinha alma candida e boa, e um coração bem formado, não pôde deixar de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna affeição pela captiva Isaura. Era esta com effeito de indole tão bondosa e fagueira, tão docil, modesta e submissa, que apezar de sua grande belleza e incontestaveis dotes de espirito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevolencia de todos.