Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas varias,—as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o aposento n'aquelle dia lindo.
Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer{59} coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.
Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a cumprimentar, quasi envergonhados do seu á vontade, como n'um casino, e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.
—Não sei se incommodo v. ex.as...
—Ora essa! Por forma nenhuma.
—V. ex.ª é...
—O pintor da casa.
E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, pelos seus trabalhos maritimos.
—E V. ex.ª traz isto...
—São os meus decretos; trago-os á assignatura.{60}