—Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se fossem todos do mesmo collegio?
—Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.
—Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.
—Assim o espero.
—Assim o creio. E falaste ás creanças?{64}
—Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia de dizer-lhes.
—Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?
—Houve só um discurso...
—Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?
—Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo que...