Que teria havido!
Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado. Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por Victor Hugo.
De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se nas fructas.
—Então?...
—Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, d'essas que andam na memoria dos homens.
—De modo que o prestigio d'essa creatura...
—Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...
—Foi então?...
—Foi o prestigio d'uma ideia.
Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse{68} o espirito para uma região de trevas. Logo voltou a si, como quem acorda d'um mau sonho, e acabando de descascar uma laranja, voltando-se para o peniculario que lhe ficava mais perto: