—Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua descendencia, o miseravel assassino!
Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!{9}
Se fores um dia ao mar,
Que a fortuna te não deixe;
Bota a rede e vae-te embora,
—Quanto mais burro mais peixe.
Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para onde.
Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o doutor topou o milagrante collega{10} na rua, e reconheceu n'elle o seu velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da Egreja, havia uma extraordinaria multidão.
—Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?
—Uns milhares.
—E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?
—Algumas duzias.