Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma illustração ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado, e evocava um tempo muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na desolação da sua viuvez, mais phantastico do que real.

O seu anniversario!

O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a{72} das virgens de Raphael, o diadema régio tinha scintillações estranhas e coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em comparação dos seus olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos, e toda a limpidez do crystal da rocha.

Tambem ella reinára!

Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de cortezãos tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que ella nem sempre lhes concedia, muito altiva, muito sobranceira, no throno, julgando-se muito perto do Olympo, e fóra do throno vendo-se muito acima da humanidade vulgar.

O seu anniversario!

Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o desfile do immenso e luzido cortejo—os diplomatas com os seus fardamentos ricos, bordados a oiro; os ministros com as suas librés de luxo, salpicadas de veneras; os bravos militares suffocando impetos guerreiros, n'uma attitude de respeitosa fidelidade, e o numero infinito de fidalgos e fidalgas dobrando o joelho no primeiro degrau do throno e babujando-lhe a mão aristocratica com a saliva do cortezanismo mais rasteiro e mais falso.

O seu anniversario!

De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o charuto sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face apergaminhada, n'uma caricia muito terna:{73}

—Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou gentil...