E explicou:

—Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas ás outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que eu chamo A reforma da bola.

—A reforma...

—Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador, embora n'outro campo, e com o melhor resultado.

—Se V. ex.ª...

—É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco das bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes, receando cada qual que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a sebenta. É engenhoso não é verdade?

—Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola do seu numero, nenhum pegaria na sebenta.{107}

—Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará os melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de juizes e delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a ver?... Acaba o favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a empenhoca.

—É maravilhoso!

—Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte improficua para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.