Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um deputado já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo que fossem publicados no Diario, e um dos ministros declarou-se habilitado a responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na vespera, um illustre deputado da maioria.

Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter alli ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra, declarou que se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:

—Tem a palavra o sr....

Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora, está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo, prendeu-lhe a attenção desde o começo.{110} A Camara estava um pouco distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle tinha a impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a sessão, o presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria ficar com a palavra reservada.

—Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho, chegam muito bem para o que me falta dizer.

Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns apertando-lhe a mão com muita força e outros abraçando-o com enternecimento.

Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:

—Muito bem! muito bem!

Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra, n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.

—Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.