Da sêde á fome vai só um passo.
[CAPITULO IV.]
«Eu sempre ouvi dizer:—frade nem vivo,
Nem morto e nem pintado na parede.—{66}
A rasão deste dito salta aos olhos;
O que frades, outr'ora, não fizessem
Incumbir ao diabo era debalde:
E as chronicas referem muitos casos
De quináos, que ao diabo os frades deram.
Mas verdade verdade, o frade de hoje,
Labéo das frias cinzas de Epicuro,
Não chega ao calcanhar do velho frade.»
Repetindo em voz alta estas blasphemias,
Os olhos affinquei n'um poento quadro,
Meu fiel companheiro no deserto
Em que a mão da fortuna me lançára.
O quadro figurava um frei Rotundo,
Nutrido e nédio, rindo-se á sorrélfa
Da feia carantonha do diabo,
Que raivoso mordia um par de dados.
Mingúa a humanidade a pouco e pouco!
Já se não topa mais um frei Bojudo
Estillando gordura ao sol em pino.
Que ditosa panella, a de outros tempos,
Onde cahisse o lenço de Alcobaça
Que limpasse o cachaço de algum frade!
Sahia a olha convertida em banha.
Hoje o frade, sequer, sabe o Larraga
Ou Brillat-Savarin. Dantes o frade
Era um poço ambulante de sciencias.
E os costumes? e o lar? se bem me lembro,{67}
Algures li que, vós, ditosos monges,
Fostes, nas priscas eras dos conventos,
Pesadelo de todos os maridos,
E horror! horror! horror! das raparigas!
«Illustre Guardião (clamo inspirado)
Tu mais que Belphegor sagaz nos tramas,
Mais roliço e mais sabio, tu me ensina
O meio de sahir destes apuros!»
Avalie-se agora o que eram frades
Em tempos que lá vão,—que desenhados
Inda fazem milagres. Repentino
Me occorre um pensamento de alta monta.
[CAPITULO V.]
Escrevi esta epistola:
«Senhora.—Vós sois a belleza, de mimosos contornos; eu sou o bello, de rudes musculos. Vós sois a bonina, que murcha ao primeiro raio do sol; eu sou o sol, que o diluvio não apagou. Vós sois a debil pastorinha avergada ao peso dos trevos com que se enfeita; eu sou o vigoroso camponez, que leva as costas um boi sem lhe sentir o peso.{68} Senhora! meditai nestas parabolicas palavras! e se julgardes ser a força o amparo da fraqueza, respondei em carta fechada com endereço a ***, que eu mesmo a-irei tirar da latinha do escriptorio do Jornal do Commercio.»
O remate estragou a epistola.
[CAPITULO VI.]
Eram oito horas e meia da noite, subi e desci a rua do Ouvidor.
Nenhum ignotus Deus! nenhuma mulher com cara de entender a epistola!