Magalhães já não se encontrava sosinho com a sua idéa, e isto mais o animou a proseguir, nos meios de levar á pratica o audacioso plano.

Sem navios nem meios para os adquirir e aprestar, sem nada poder esperar do rei que o despresara, tinha fatalmente que recorrer a Castella, tanto mais, que para realisar a sua viagem, não querendo abeirar-se{35} de terras portuguezas, precisava tocar em terras sujeitas á Hespanha e onde não era permittido estabelecer trafico sem auctorisação do rei de Castella.

A Carlos V ia offerecer os seus serviços e descobrir os seus planos, pedindo que lhe fornecesse os meios de os realisar. Mais tarde havia de Camões cantar, nos seus immortaes Luziadas, os feitos de Magalhães:

Eis-aqui as novas partes do Oriente,
Que vós outros agora ao mundo daes,
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com tão forte peito navegaes.
Mas é tambem razão, que no Ponente
D'um Lusitano um feito ainda vejaes,
Que de seu Rei mostrando-se aggravado,
Caminho ha de fazer nunca cuidado.

Vedes a grande terra, que contina
Vae de Callisto ao seu contrario polo,
Que soberba a fará a luzente mina
Do metal, que a côr tem do louro Apollo;
Castella, vossa amiga, será digna
De lançar-lhe o collar ao rudo collo:
Varias provincias tem de varias gentes,
Em ritos e costumes differentes.

Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
Parte tambem c'o pao vermelho nota:
De Sancta Cruz o nome lhe poreis;
Descobril-a-ha a primeira vossa frota.
Ao longo d'esta costa, que tereis,
Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito com verdade
Portuguez, porém não na lealdade.{36}
{37}

VI

Abandonando a patria e o rei, que tão mal apreciara os seus serviços, Fernão de Magalhães se foi a Sevilha, onde, ainda antes, talvez, de tratar dos negocios da sua empreza, se lhe prendeu o coração a uns olhos negros e pestanudos de uma gentil sevilhana, D. Beatriz, filha de Diogo Barboza.

O bravo soldado que combatera na India e na Africa; o arrojado navegador que dominara a porcella e queria devassar ignotos mares que a espada de Balboa havia desafiado, como diz Alexandre de Humboldt—«com a espada na mão mettia-se á agua até aos joelhos, e pensava apossar-se do mar do sul em nome de Castella»—o heroe de Azamor, o homem forte que só parecia viver para a audaz empreza da circumnavegação do globo, rendeu-se aos encantos{38} de uma mulher, que soube conquistar-lhe o coração e a quem elle, pouco tempo depois de ter chegado a Sevilha, dava a mão de esposo.

Tambem d'este enlace lhe veio auxilio para os seus planos, porque Diogo Barbosa, sogro de Fernão de Magalhães, era, como diz Gaspar Correia: «... homem principal, que sabia navegar no mar, porque era muito entendido na arte de piloto e era esperico—o que quer dizer spherico ou cosmographo, que sabe da sphera.