Enorme lucta, sem duvida; mas ainda maior que essa lucta era o ideal de Fernão de Magalhães, que antesonhava o grande progresso geographico que realizaria com a sua viagem de circumnavegação do globo, prestando ao mundo um alto serviço e cobrindo o seu nome de tanta gloria, que faltando á religião da patria, ella não se deshonraria a final de o ter por filho.

Deshonra e vergonha seria se Fernão de Magalhães houvesse cruzado os braços ante a injustiça dos homens, rojando-se submisso aos pés de um throno que o desprezava. Encontrando-se{32} com animo para a audaz empresa que planeava, pouco lhe devia importar o ser portuguez ou de outra qualquer nacionalidade; essa preoccupação seria futil no meio da sua grandiosa obra. Elle tinha fatalmente que realizar os seus planos. Se a patria lhe negava os meios de os levar a effeito, elle iria por esse mundo fóra procural-os até encontrar quem lh'os facultasse; e foi e encontrou!

Se para a Hespanha Fernão de Magalhães conquistou terras, para Portugal conquistou a gloria do seu nome. Essas terras poderão um dia deixar de ser de Hespanha; mas a gloria do nome de Fernão de Magalhães é que nunca deixará de ser de Portugal!{33}

[[1]] Não está bem determinada a data do nascimento de Fernão de Magalhães; é, todavia, certo que elle nasceu na aldeia de Sabrosa, de Traz-os-Montes e que seu pae se chamava Pedro, sendo da quarta nobreza de Portugal, ou fidalgo de cotta d'armas e geração que tem insignias de nobreza, tendo a sua familia escudo d'armas enxequetado, ou em quadradinhos como taboleiro de xadrez.

[[2]] Este testamento só foi conhecido em 1855, segundo diz Arana, que d'elle teve conhecimento por uma copla de Ferdinand Diniz, que a houve de um herdeiro de Magalhães.

V

Mediaram cerca de tres annos entre os successos que levaram Fernão de Magalhães a renegar a nacionalidade portugueza, e a sua entrada em Sevilha a 20 de outubro de 1517.

Este tempo consumiu-o em estudos de cosmographia e nautica, escrevendo tambem a sua obra em castelhano sobre as terras que tinha visitado, á qual deu o titulo: Descripcion de los reinos, costas, puertos e islas que hai en el mar de la India oriental i costumbres de sus naturales: su gobierno, religion, comercio i navegacion, i de los frutos i efectos que producen aquellas vastas regiones, con otras noticias mui curiosas; compuesto por Fernando Magallanes, piloto portuguez que lo vio i anduvo todo.

Esta obra nunca foi publicada, apesar d'isso{34} extrahiram-se d'ella algumas copias, que alteraram muitos pontos essenciaes das viagens de Magalhães, o que bastante deprecia o seu conhecimento, e Diego de Barros Arana, diz que viu em Madrid uma d'essas copias, de letra do seculo XVI que possuia o erudito bibliophilo D. Paschoal de Gayangos.

Aos estudos que Fernão de Magalhães fazia, ora em Lisboa ora no Porto, onde tinha mais persistencia, reuniu o conhecimento de Ruy ou Rodrigo Faleiro da Covilhã, que segundo diz Oviedo, na sua Historia jeneral de las Indias, era homem de grandes conhecimentos de cosmographia, astrologia e outras sciencias. Faleiro foi de grande auxilio para Magalhães porque comprenetrando-se do seu pensamento e dos seus planos associou-se calorosamente á empreza, juntando-se-lhe Francisco Faleiro, irmão de Rodrigo e que tambem era homem sabido em coisas de nautica.