Na Africa feria-se uma guerra contra mouros que se batiam denodadamente com os portuguezes. Não menos que para a India se dirigiam as vistas do rei afortunado para aquelle campo das nossas conquistas, e assim mandou aprestar uma grande armada, composta de quatrocentos navios,—segundo diz Faria e Sousa, na sua Africa Portuguesa,—em que embarcou dezenove mil homens de guerra, sob as ordens de seu sobrinho D. Jayme de Bragança.

N'esta armada partiu Fernão de Magalhães, emprehendendo a sua terceira viagem, em 1513; e não foi esta menos gloriosa para o seu nome que as duas primeiras; pois que combatendo ao lado de João Soares contra aquelles povos semi-barbaros, occupou a praça de Azamor e defendeu-a valorosamente contra as tropas dos reis de Fez e de Mequinez. N'esta guerra se excedeu tanto em valor que, a par do ferimento que recebeu em uma perna, de que ficou coxeando, lhe foi dado o posto de quadrilheiro-mór, ou capitão de uma companhia; e perseguiu de tal modo os mouros que aprisionou oitocentos e noventa d'estes e duas mil cabeças de gado.

Segundo diz Barros, esta façanha foi origem de desgostos para Fernão de Magalhães,{29} porque na repartição da presa levantaram-se tantas reclamações e intrigas que chegaram aos ouvidos de el-rei D. Manuel, indispondo este monarcha contra o heroe de Azamor.

Quanto de inveja e de mal soffridas ambições andariam n'isto, é o que não podemos affirmar; mas, a julgar pelos resultados, mui negras deviam ser as côres com que apresentaram a el-rei o quadro do procedimento de Magalhães, para que este, depois de se justificar com documentos, provando a falsidade das arguições ainda assim não conseguisse recompensa regia dos seus serviços e ainda menos perdão da supposta culpa.

Ouçamos o que sobre este ponto diz Gaspar Correia, nas suas Lendas da India, n'aquella linguagem do tempo, e que vamos transcrever quanto possivel approximada e intelligivel para a maioria dos leitores de agora. «... Fernão de Magalhães, vindo ao reino, allegando a el-rei seus serviços, pediu em recompensa lhe accrescentasse cem réis de moradia por mez, o que el-rei lhe denegou, por não cahir em sua graça, ou porque estava destinado que assim havia de ser. Fernão de Magalhães, aggravado, porque muito o pediu a el-rei e elle lh'o não quiz fazer, lhe pediu licença de ir viver para quem lhe fizesse mercê e alcançasse mais fortuna{30} que com elle, ao que el-rei lhe disse, fizesse o que quizesse, e lhe quiz beijar a mão e el-rei lhe a não quiz dar.»

Não se pense d'aqui que a pureza dos costumes do tempo fosse tal que, admittindo que Magalhães fosse menos escrupuloso no seu procedimento, não lhe pudessem ser levados em conta os serviços prestados ao reino, para lhe attenuar a falta; porque é certo que a outros, não mais prestantes nem menos ambiciosos, a munificencia do rei encheu de honras e prebendas, apesar das faltas commettidas.

As injustiças são de todos os tempos, sem que por isso se deva sempre condemnar quem as comette; porque muitas vezes são involuntarias e apenas resultado de tramas bem urdidos por terceiros.

Foi, provavelmente, o que aconteceu com Fernão de Magalhães, que tanto se sentiu de ver-se injustamente desattendido, que renegou da sua nacionalidade de portuguez para offerecer os seus serviços a Castella.

Não se fala da lucta que elle travaria comsigo mesmo para levar a cabo esta resolução; mas é bem de suppôr seria enorme, se tivermos em vista quanto devia repugnar a um portuguez o trocar a sua nacionalidade pela de uma nação, que sempre nos disputou a supremacia, quer nas conquistas{31} e descobrimentos, quer na absorpção d'esta gloriosa patria portugueza. Enorme lucta, sem duvida, a que se levantou no espirito de Fernão de Magalhães; mas como resistir-lhe, se essa resistencia seria a annullação dos seus planos audaciosos, que não eram a satisfacção de um capricho, vaidade impertinente, ou ambição injusta.

O escudo das suas armas ia ser picado, o nome da sua familia execrando, apontado ao desprezo; e elle estimava tanto os pergaminhos de seus antepassados, o seu nome, a sua patria, que, ao apartar-se d'ella pela primeira vez, recommendara a seus herdeiros, nas desposições testamentarias, que lhe guardassem o seu escudo de armas e o transmitissem aos seus descendentes.