VII
As declarações feitas por Fernão de Magalhães na Casa da Contratação de Sevilha, não foram sufficientes para esta appoiar abertamente os projectos do ousado navegador, e se não fôra a influencia de João de Aranda, que se empenhou para que tivesse bom seguimento a proposta de Magalhães, talvez este não lograsse ainda o seu intento.
João de Aranda, era feitor da Casa da Contratação, de animo propenso a emprezas arriscadas e por isso comprehendeu bem todo o alcance da empreza de Magalhães e tanto que prometteu protejel-a mediante alguma parte dos lucros que d'ella resultassem.
Foi n'esta occasião que chegaram a Sevilha os dois irmãos Faleiros os quaes não concordaram com o que Fernão de Magalhães havia tratado com João de Aranda, muito principalmente Rodrigo Faleiro que era{44} homem de caracter mais desconfiado e irritavel, e que se considerava a alma da empreza de que Magalhães seria o elemento pratico.
Importantes deviam ser os estudos de Rodrigo Faleiro, para que Magalhães se sujeita-se ás suas exigencias, transegindo com elle tanto quanto possivel, no que bem mostrava a generosidade de animo a par de melhor conhecimento pratico do mundo, para debelar as difficuldades que se levantavam no seu caminho.
De tal arte soube conciliar tudo para chegar ao seu fim, fazendo boas as negociações que havia entabolado com Aranda, firmando, emfim, um contracto em Valladolide a 23 de fevereiro de 1518, perante o escrivão de suas altezas, Diogo Gonçalves de Sant'Iago, em que elle, Magalhães e Rodrigo Faleiro dariam a oitava parte do proveito que resultasse em dinheiro, ou renda, ou officio ou em outra qualquer coisa que seja, de qualquer quantidade ou qualidade dos descobrimentos que se propunham levar a cabo.
Não estava ainda bem firme no throno das Hespanhas o principe Carlos d'Austria, o que naturalmente preoccupava o jovem monarcha, não sendo por isso muito favoravel a occasião para se occupar das pretenções de Magalhães.
Entretanto o navegador portuguez escudado{45} com as protecções que grangeára, sempre conseguiu chegar á presença do monarcha e fazer exposição dos seus planos, tendo primeiro apresentado aos ministros do rei esses mesmos planos, apresentação para a qual muito influiu o bispo de Burgos D. João Rodrigues da Fonseca.
É para notar que este bispo de Burgos, que combatera tenazmente os planos de Colombo, de Balbôa e de Cortez, se apresentasse na côrte protegendo Magalhães com decidido empenho! Não nos diz a historia se n'esta protecção iria interesse pessoal, ou a convicção da utilidade pratica dos projectos de Magalhães, sendo, todavia, certo que o caracter do bispo não era dos de melhor quilate.
Em todo o caso percebe-se que Fernão de Magalhães soubera pôr o bispo de seu lado, como já soubera conciliar as divergencias levantadas por Faleiro.