Mas ha ainda mais.
Carlos V não accedeu tão de prompto, como a muitos parecerá, depois da resposta que dera aos regedores da Casa de Contratação, ás propostas de Fernão de Magalhães, e antes levantou duvidas, desconfianças sobre a auctoridade em que o ousado portuguez firmava os seus planos.
Era de esperar.
Mas Fernão de Magalhães não se desconcertou.{46} Soccorreu-se das observações feitas em suas viagens, do que havia estudado e de quanto adquirira de Faleiro; por fim citou uma carta geographica, existente em Portugal, levantada por Martinho de Bohemia em que marcava a communicação entre o mar do norte e o do sul, e com tanta proficiencia discutiu os seus planos que conseguiu desvanecer todas as duvidas no espirito de Carlos V, acabando este por lhe conceder quanto pedia, mandando lavrar o contracto, o qual se celebrou a 22 de março de 1518. Por este contracto foi dado a Fernão de Magalhães e a Faleiro o privilegio de, por espaço de dez annos, a nenhum outro navegador ser concedido ir a descobertas pelo mesmo caminho que elles. Seriam postos á sua disposição cinco navios, armados de artilheria, e guarnecidos com 234 homens, com mantimentos para 2 annos e mais dava o commando dos ditos navios a Fernão de Magalhães e a Faleiro e a vigesima parte dos lucros que houvesse d'estes descobrimentos, conferindo-lhe o de adiantados e governadores das terras que descobrissem a elles e seus descendentes. Alem d'isto ainda Carlos V deu o titulo de capitães d'esta esquadrilha a Magalhães e a Faleiro, com 50:000 maravedis de soldo pagos pela Casa da Contratação, com toda a auctoridade em terra e no mar, etc.{47}
Não contente ainda com o que tinha concedido, Carlos V, pouco depois de celebrado aquelle contracto, ordenou que fosse augmentado o soldo dos dois capitães com mais 8:000 maravedis e 30:000 para ajuda de custo; mandando tambem que se abreviasse quanto possivel o armamento dos cinco navios.
Fernão de Magalhães ia triumphando com a sua idéa, mas não tardou que novas difficuldades se levantassem, e d'esta vez era de Portugal que vinham.
Soube-se na côrte de D. Manuel do que se estava passando em Hespanha com os dois portuguezes, e calculando-se quanto poderiam perigar as possessões portuguezas na India, se Fernão de Magalhães levasse por diante seu intento, necessario era combatel-o.
Era embaixador portuguez em Hespanha D. Alvaro da Costa, que ali fôra pedir a mão da infanta D. Leonor para el-rei D. Manuel. Sob este pretexto e quantos mais se podem imaginar, representou contra as concessões feitas por Carlos V a Fernão de Magalhães, e com tal arte se houve que o monarcha das hespanhas se abalou, chegando a ponto de quasi revogar o que estava contractado.
Foi ainda o citado bispo de Burgos que demoveu todas as duvidas.
Fernão de Magalhães iria finalmente á descoberta.{48}
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