É facil calcular as inclemencias que aquelles desgraçados soffreriam e quão duramente expiaram o seu delicto.
Se Fernão de Magalhães affirmou a sua auctoridade de forma tão cruel, deve-lhe ser levado em conta a rudeza dos tempos e a imperiosa necessidade que a isto o obrigou, para não vêr completamente perdida a sua gloriosa empreza.{66}
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[[4]] Vida e Viagens de Fernão de Magalhães por Diego de Barros Arana.
[[5]] Navarrete publicou este processo a pag. 10 do tomo IV da sua Coleccion.
X
Fernão de Magalhães conseguira, emfim, restabelecer a ordem na sua esquadrilha; mas, se não receava novas sublevações que contrariassem o seu proposito, contrariava-o a invernia com todos os rigores de suas tormentas, que não o deixava avançar na viagem de exploração.
A impaciencia principiava a apoderar-se do seu espirito, porque o tempo ia correndo sem resultado pratico que o animasse, tanto a elle como á sua gente.
Chegou o fim de abril e os rigores do inverno pareciam ceder ás instancias da primavera risonha e boa.
Tanto bastou para que Magalhães ordenasse um reconhecimento ao Sul da bahia de S. Julião, por onde julgava encontrar o almejado{68} estreito ou passagem para os mares da India.
Encarregou João Serrão de ir, na caravella Santiago, a mais pequena da esquadrilha, fazer esse reconhecimento, para o que deu ao ousado piloto as instrucções necessarias, recommendando-lhe que seguisse sempre para Sul e parallelo á costa, porque assim encontraria o estreito.