O triumpho das armas christãs importaria a submissão completa e incondicional de todos aquelles povos, e o grande capitão não só teria coroado a sua empresa de encontrar o mar do sul, mas traria á Hespanha tributarios os povos d'aquellas regiões, fascinados e submettidos pelo prestigio das suas armas.

Era de tentar a cartada! Quem lhe poderia resistir?!{119}

XVII

Passou-se o dia 26 e a noite em aprestos para o ataque.

O grande capitão reuniu todos os homens de guerra, que não excediam a sessenta, pelo que diz Diego Arana, armados de couraças e de cascos; o resto eram enfermos, incapazes de entrarem em combate. Mandou arrear algumas peças de artilharia para as chalupas, escudos sobrecellentes e mosquetes, munições e alguns comestiveis, não muitos, pois não os havia para larguezas; mas o que faltava ao corpo, abundava no espirito, porque a gente de guerra estava desejosa de bater-se, tanto tempo havia decorrido que não experimentava armas.

Era natural.{120}

Pela meia noite principiou o embarque nas chalupas.

Havia passado um anno e sete mezes que esses valentes tinham embarcado tambem, em S. Lucar de Barrameda, para a famosa expedição, cheios de enthusiasmo, a correr aventuras como agora.

Em S. Lucar o sol de agosto aquentava-lhes mais o espirito e inundava de luz o mar a que se faziam suas caravelas, levadas como que entre nuvens de fumo dos tiros de artilharia, que diziam o ultimo adeus ás terras de Hespanha.

Em Zebú, porem, a partida era differente; o véo da noite envolvia a terra e os mares; o sol não saudava aquelles valentes, que então como agora iam jogar a vida. Tinham de abafar o seu enthusiasmo no meio do silencio de uma noite triste e funebre, em que no céo apenas uma ou outra estrella vagueava sua luz tremente, como olhos marejados de lagrimas. Não havia corações amigos a saudal-os na despedida, mas gente barbara e extranha que os olhava temerosa e desconfiada.