Que differença!

E em silencio se fez o embarque, a que assistiu Fernão de Magalhães, embarcando elle na ultima chalupa.

O rei de Zebú, com um dos principes e{121} outros senhores da ilha, seguiram os christãos em balangais, com indios armados de piques.

Vento fresco encrespava o mar por onde os barcos iam correndo, ora orçando da vaga ora arribando para o vento.

Magalhães, de pé, á pôppa da sua chalupa, vigiava todo o governo e ordenava a manobra.

Ia satisfeito; pelo seu espirito não passava sombra de receio da aventura em que ia lançar-se. As horas pareciam-lhe mais longas que de costume; a noite não tinha fim!

Proximo da madrugada chegavam as chalupas á ilha de Mactan, e o primeiro impulso de Magalhães foi o desembarcar immediatamente com os seus homens de guerra, mas não era possivel. A maré estava baixa e as ondas quebravam-se com violencia contra os cachopos da praia, elevando-se espumantes para o ar.

Qualquer barco que tentasse abordar á terra correria o risco de se despedaçar entre os recifes.

Comtudo a impaciencia de Magalhães não lhe soffria delongas e, sem attender ao perigo, ordenou a um mouro, que ia nas chalupas, para que da sua parte fosse intimar o regulo de Mactan a reconhecer a soberania do rei de Hespanha e prestar obediencia ao rei christão de Zebú, pagando os{122} tributos exigidos; de contrario os castigaria pelas armas[[9]].

Foi-se o mouro com a intimação, e se escapou de mergulhar entre os recifes, quasi ia ficando preso na ilha, pois os rebeldes não se intimidaram com as suas palavras e antes responderam que: saberiam defender-se e resistir aos christãos, pedindo sómente que os não atacassem de noite.[[10]]