Não se acobardam os barbaros com as perdas soffridas, e disputam a posição com inesperado valor. Em alguma cousa se fiam para arrostarem com os christãos. Contam com a sua superioridade numerica, que não tarda a ser reforçada, e agora apparece pela frente outra manga, tanto ou mais numerosa que as primeiras, arrogante e bem armada de varas de madeira endurecidas ao fogo, que ferem como laminas de aço.
Magalhães e a sua gente vêem-se cercados por todos os lados. Elle, só á sua conta, tem rechassado um bom numero de indios; braço vigoroso, animo decidido, não cansa.{125}
Tenta dividir o inimigo; e manda lançar fogo á povoação, para que elle corra a dominar o incendio.
Mas esta estrategia não dá resultado, porque os indios mais se exasperam, e alguns, correndo sobre os incendiarios, ainda colhem dois a quem logo dão a morte.
As numerosas mangas vão crescendo cada vez mais sobre os hespanhoes, arremessando-lhe um sem numero de flechas, varas e pedras, que lhes atiram os cascos fóra da cabeça.
Alguns, considerando-se perdidos, já fogem para a praia e entram na agua, que lhes chega quasi aos hombros, em procura das chalupas, onde se refugiam.
Magalhães resiste sempre, acompanhado pelos mais fieis e corajosos, que todos se batem com denodo.
Os indios, vendo que as suas flechas resvalam das couraças e caem na areia sem causar damno ao inimigo, apontam-n'as mais baixas, procurando ferir as pernas dos adversarios. Este expediente dá-lhes resultado, porque os homens de Magalhães debandam em maior numero, sentindo-se feridos. Entretanto é ao chefe que os indios mais assestam as suas pontarias até que uma flecha lhe acerta n'uma perna.
Magalhães não perde um momento a sua{126} coragem, sustenta a lucta e anima os seus a que o egualem.
—Por Santiago matemos estes miseraveis!