E batia-se para a frente e para os lados, levando com a sua lança a morte aos inimigos, que não o poupavam.

Por duas vezes lhe fazem saltar fóra da cabeça o casco com pedradas que lhe atiram.

Mas elle não se estonteia nem recua; põe-n'o de novo e continua na tremenda lucta.

Agora é uma flecha que se lhe crava na face, mas elle cresce sobre o audacioso, embebendo-lhe a lança no corpo! Outra flecha trespassa-lhe o braço direito quando elle vai a desembainhar a espada, que fica na bainha. Solta então um rugido de dôr e de desespero, porque se vê desarmado.

Grita pelos seus, mas inutilmente, porque uns jazem por terra e outros teem-se precipitado para as chalupas.

Sente-se abandonado no meio do inimigo. Um esforço supremo para se desaffrontar. Sobra-lhe na alma coragem para bater-se até a morte, mas fallece-lhe no corpo força para reagir.

Os indios percebem que o valente capitão já os não póde ferir, e lançam-se sobre elle como chacaes.{127}

Deitam-n'o por terra, e elle ainda se ergue uma e mais vezes com esforço heroico, a clamar pela sua gente; mas ninguem o ouve nem lhe póde acudir.

Nem um d'entre elles, diz Pigafetta, havia que não estivesse ferido e pudesse soccorrer ou vingar o seu chefe. Precipitaram-se para as chalupas, que estavam prestes a partir, e deveram a sua salvação á morte de Magalhães, porque, quando elle succumbiu, os indios correram todos para o logar onde elle tinha cahido.

Fernão de Magalhães poderia então, como o infante D. Pedro, em Alfarrobeira, soltar aquella phrase memoravel: