Cinco dias depois do triste acontecimento que acabamos de narrar, a 1 de maio de 1521, nova desgraça viera ferir os castelhanos. Moveu-a a intriga e o despeito de um escravo de Magalhães, que era o lingua da expedição, pelo que refere Pigafetta e conforme o que Sebastião de Elcano declarou no inquerito que, em 1522, se levantou sobre a viagem de Magalhães e tragico fim do valoroso capitão.

Aquelle escravo tinha seus aggravos de Duarte Barbosa que, com Serrão, tomara o commando da frota, e para vingar-se persuadiu o rei de Zebú de que os christãos o queriam trazer captivo para a Europa. Esta falsa denuncia foi como que o fogo lançado ao rastilho, pois de mais estava já o rei de Zebú incitado pelos regulos de Mactan, que o ameaçavam de morte e destruir-lhe os seus dominios se elle não desse cabo dos castelhanos.{131}

Faltando-lhe, porém, a coragem para se defrontar com os europeus em lucta leal, o rei de Zebú recorreu á traição. Continuou a mostrar-se muito amigo dos castelhanos e fiel subdito do rei de Castella, ao qual queria mandar um valioso presente. Para fazer entrega d'esse presente convidou os commandantes Barbosa e Serrão a jantarem com elle em terra e que trouxessem os immediatos e mais pessoas da frota que entendessem, com o que lhe dariam grande honra.

Duarte Barbosa, João Serrão e mais vinte e sete homens, entre os quaes se encontravam Luiz Affonso de Goes, portuguez arvorado commandante da caravella Victoria, depois da morte de Magalhães, o piloto André de San Martin, Sancho de Heredia e Leão da Espeleta, escrivães da frota, e o capellão Pedro da Valderrama.[[11]]

Foi isto na manhã do citado dia 1.º de maio. O rei de Zebú com alguma gente de seu sequito aguardava na praia a chegada dos convidados e, logo que estes desembarcaram, encaminharam-se todos para um palmar, á sombra do qual estava preparada a refeição.

O logar não podia ser mais ameno para resguardar dos raios ardentes do sol, que a{132} custo penetravam aqui e acolá por entre as fisgas das largas folhas das palmeiras que formavam abobada sobre o recinto do festim, vindo reflectir nos vasos de ouro e nas porcellanas dispostas sobre a esteira que fazia de mesa, como era uso.

O rei apparentava toda a docilidade e gentileza de que podia dispôr, e com elle a sua côrte se mostrava em extremo submissa aos christãos, de modo que nada fazia suspeitar da traição que tinham armado; só João Serrão desconfiava de alguma cilada, mas pouco valeu a sua desconfiança, porque Duarte Barbosa, nada receando, instou com elle para que o acompanhasse, e Serrão accedeu para não ser tido por timorato ou cobarde.

Em volta da esteira todos se sentaram e principiaram a servir-se do que havia, comendo e bebendo em boa convivencia; mas cedo reconheceram o engano, porque um bando de indigenas armados, que surdiu de emboscada, lançou-se traiçoeiramente sobre os castelhanos e logo se armou alli uma lucta braço a braço, cada vez mais terrivel, sendo os indigenas em tão grande numero que impossivel era submettel-os.

Os castelhanos foram todos assassinados e só João Serrão escapou n'aquelle momento á furia dos selvagens por um certo prestigio que tinha sobre elles.{133}

De pouco isso lhe valeu! Dois tripulantes, mais felizes que seus companheiros, que em terra pereceram na lucta desegual, haviam-se afastado ao desembarque, suspeitando de alguma cilada, e assim que conheceram a traição, foram-se para bordo a dar parte ao piloto portuguez João Carvalho do que occorrera em terra. Carvalho immediatamente mandou approximar os navios da terra e rompeu fogo de artilharia contra a ilha.