Os indigenas, sentindo os tiros, apoderam-se de João Serrão depois de encarniçada lucta, em que este ficou mal ferido, e atando-o de pés e mãos, conduziram-n'o á praia ás vistas dos seus companheiros que dos navios continuavam a fazer fogo sobre a ilha.

Serrão vê-se perdido e grita e clama para os seus que cessem fogo e tragam presentes áquella gente para o resgatar. A confusão, porém, é enorme; João Carvalho não póde dar ouvidos a taes clamores, e receia nova traição dos indigenas, para se apoderarem do resto da sua gente e dos mal defendidos navios.

Para que se não perca tudo ingloriamente, só resta abandonar aquellas ilhas e fazer-se ao mar, para voltar a Hespanha como pudesse, e, emquanto João Serrão ficava na praia gritando para que o salvassem, porque o matariam assim que os navios largassem suas{134} velas, João Carvalho foi ordenando as manobras e aproando ao mar as caravellas.

Serrão, a quem os indigenas, no primeiro impeto, haviam poupado a vida, soffreu as torturas de morrer inanime ás mãos d'aquelles selvagens, vendo fugir-lhe a unica esperança de salvação, que por momentos o animara, com a partida da frota.[[12]]

Triste e vergonhosa retirada aquella para gente que a tanto se afoitara; mas é evidente que já faltava alli o espirito do grande capitão portuguez que a animara e conduzira, por vontade ou por força, a dar a volta dos mares, realizando a primeira viagem de circumnavegação.{135}

Em Mactan deixaram Magalhães morto, que nem seu cadaver puderam arrancar do poder dos indigenas, e assim perderam a alma d'aquella empresa que assombrou o mundo; em Zebú ficavam Duarte Barbosa e João Serrão com seus companheiros victimas de uma traição.

De melhor sorte eram dignos aquelles bravos, que nem tiveram quem alli os vingasse.{136}
{137}

[[11]] Diego Arana, Vida e viagens de Fernão de Magalhães.

[[12]] Pigafetta, liv. II—Herrera, dec. III, liv. I, cap. X.

Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomo II das Lendas da India.