Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo instaurado em Sevilha no anno de 1522.
Gaspar Correia, na sua linguagem barbaresca, que modificaremos para melhor ser entendida hoje, diz, referindo-se ao combate com os indigenas de Mactan: «O rei corrido, vendo-se assim destroçado, concertou traição com o rei christão e fez com elle ajuste de casar com sua filha e com juras que, morrendo elle, que era velho, tudo lhe deixava e viveriam sempre amigos, porque os castelhanos se iriam embora, e se não acceitasse isto e lhe não desse modo de matar os castelhanos, lhe faria guerra. O que o rei christão, como homem brutal, consentiu na traição e preparou grande festa e banquete pelo vencimento, e convidou Magalhães, que foi ao banquete com trinta homens os mais honrados e bem vestidos, onde estando todos no banquete folgando, entraram os inimigos armados e mataram a Magalhães e os castelhanos, não escapando nenhum e o Serrão o despiram e arrastaram á praia onde o justiçaram e mataram arrastado.»
XIX
Foram mais previdentes que humanos os mareantes, que se fizeram á vela sem empregar alguns meios de salvar o Serrão e vingar a morte de seus companheiros. Mas nem por isso foram mais felizes no proseguimento de sua viagem, que a fortuna raro corôa acção ruim.
Chegados á ilha de Bohol, agora uma das Filippinas, reconheceram quanto era reduzido o pessoal para as manobras das tres embarcações que restavam da flotilha de Magalhães. Apenas havia 115 homens, e por isso João Carvalho, que ia commandando agora a frota, determinou que se lançasse fogo á caravella Conceição, por ser a mais arruinada, e a tripulação d'esta fosse distribuida pela Victoria e Trindade.
Assim aportaram a mais algumas ilhas do{138} archipelago e em todas tractaram e fizeram commercio com os naturaes.
Na ilha de Borneo, porém, onde aportaram a 8 de julho, iam ficando captivos, ou mortos se, suspeitando da traição que os naturaes lhe preparavam, não largassem immediatamente para o mar, vendo que se dirigia para os navios grande numero de pirogas e juncos cheios de gente armada.
Foi preciso fazer fogo de artilharia sobre aquelles barcos, com o que destruiram a muitos chegando a aprisionar 16 homens e treze mulheres.
Entre os prisioneiros contaram o filho do rei da ilha de Luzon, o que seguramente era boa presa, para com ella João Carvalho resgatar um filho seu e mais dois castelhanos que haviam ficado em terra, quando as caravellas tiveram que se fazer ao largo. Mas não o entendeu assim o Carvalho, preferindo receber ouro pelo resgate, o que valeu o mesmo que sacrificar o filho e os dois companheiros, porque os insulanos não lhe entregaram os captivos a despeito de todas as diligencias que elle fez para esse fim.
Era, por desgraça, o justo premio do que praticára em Zebú.