D'esta torpeza cedo teve que se arrepender o Carvalho, que certamente não seria com acções d'este jaez que elle, havia de{139} conservar e até augmentar seu prestigio entre os demais.
D'ahi lhe resultou seguramente o ser deposto por seus companheiros que, reunidos, resolveram dar o commando da Trindade a Gonçalo Gomez de Espinosa, e o da Victoria a João Sebastião de Elcano, fidalgo biscainho, que até ahi se conservara na sombra.
Foram estes dois capitães que conseguiram levar seus navios até as Molucas, não sem grandes difficuldades, pois não tinham a latitude certa em que demoravam. Valeram-se para isso de pilotos que aprisionaram, em embarcações que iam encontrando por aquelles mares, e d'este modo lograram seu intento com grande alegria e proveito, segundo refere Pigafetta.
Foi a 8 de novembro que a Victoria e a Trindade fundearam no porto da ilha de Tidore. Haviam chegado, emfim, ás terras das especiarias, sonho dourado d'aquelles tempos e que déra causa áquella viagem aventurosa.
Os portuguezes já por alli tinham andado e disposto os naturaes para o tracto com os europeus, e por isso os hespanhoes encontraram melhor acolhimento, facilitando o seu commercio, em que trocaram tecidos por cannella, noz-moscada, pimenta e cravo.{140}
Os capitães celebraram tractados de commercio e vassallagem com os regulos e, apressando o regresso, para trazerem tão boas novas a Carlos V e á patria, dispuseram-se a partir em meio de dezembro.
Só porém a caravella Victoria pôde largar da ilha de Tidore, a 21 de dezembro, ficando a Trindade de querena, pois precisava de grande concerto nas obras vivas.
A Victoria veiu tocando em mais algumas ilhas, provendo-se de sandalo e de cannella, seguindo a rota que os portuguezes faziam nas suas viagens para a India, segundo diz Pigafetta.
Trazia 60 homens de tripulação, entre estes treze naturaes da ilha; mas os trabalhos, as doenças e as insubordinações vieram dizimando esta gente, morrendo uns e tendo que se executarem outros por seus delictos graves.
Quando a Victoria aportou á ilha de Sant'Iago de Cabo Verde, a 9 de junho de 1522, obrigada pela fome, que já victimara alguns homens de sua tripulação, estava cada vez mais reduzida.