Em Sant'Iago não foram mais felizes, porque os portuguezes, ciosos de que extranhos andassem em exploração de mares e terras que a elles só competia, quizeram apresar o navio castelhano e a gente que{141} n'elle vinha, logo que souberam, por denuncia de um tripulante, da viagem que vinham fazendo.

A Victoria teve, por isso, de largar precipitadamente, não sem lhe ficarem em terra doze homens prisioneiros dos portuguezes.

Finalmente a 6 de setembro de 1522 chegava á bahia de S. Lucar de Barrameda a Victoria, commandada pelo afortunado Sebastião de Elcano e com dezoito homens dos 265 que tres annos antes haviam partido na expedição.

Dia de jubilo para alguns e de tristeza para muitos foi o da chegada da Victoria a S. Lucar de Barrameda. Os que se regosijavam por ver chegar os que lhe pertenciam, mal acalmavam os lamentos das viuvas, das mães ou das irmãs, que debalde procuravam entre os recemchegados, os maridos, os filhos ou os irmãos.

Eram tão poucos os que voltavam e tantos os que haviam partido!

Que de sacrificios não custara aquella viagem; que de vidas immoladas á civilização, desde a do chefe da frota até a do mais obscuro marinheiro!

Entretanto a noticia do regresso espalhava-se por toda a Hespanha, levando a admiração e o espanto á gente por aquelles ousados navegadores.{142}

Carlos V, que chegara da Allemanha, ao saber a boa nova escrevia a Sebastião de Elcano, ordenando-lhe que fosse á sua presença a contar-lhe da viagem: «E quero, dizia, que me informeis mui particularmente da viagem que haveis feito, e do que n'ella succedeu, e vos mando que, logo que esta vejais, tomeis duas pessoas das que comvosco vieram, das mais cordatas e de melhor razão, e vos partais com ellas para onde eu estiver, que por este correio escrevo aos officiaes da Casa de Contractação das Indias, que vos vistam e vos assistam com todo o necessario a vós e ás dictas duas pessoas».[[13]]

Sebastião de Elcano apressou-se a ir á presença de Carlos V, que estava em Sevilha, fazendo-se acompanhar de Pigafetta, o qual apresentou ao imperador um livro manuscripto, relatando dia a dia a viagem de circumnavegação.

Carlos V ficou maravilhado e encheu de honras e pensões Sebastião de Elcano, mais afortunado que Fernão de Magalhães a quem essas honras e pensões deviam pertencer. Ao piloto hespanhol concedeu Carlos V a pensão annual de 500 ducados de ouro, auctorização para se acompanhar sempre{143} de dois homens armados, e um brasão de armas quartelado, representando scenas da viagem, e tendo por timbre um globo com a inscripção: Primus circumdidiste me.