Eram o brasão e timbre que deviam pertencer a Fernão de Magalhães, que tão infeliz foi que nem sequer o pôde legar a seus descendentes, como era seu desejo.
O filho e esposa de Magalhães pouco sobreviveram ao grande capitão, pois que o primeiro morreu em 1521 e a segunda um anno depois; e o mesmo succedeu a Diogo Barbosa, seu sogro, e mais parentes, que poucos annos se lograram, desapparecendo assim no tumulo os poucos herdeiros do grande navegador.
A fortuna vária não deixou pois a Magalhães gosar os fructos da sua gloriosa empresa; outro colheu os louros e os brasões de tal feito; mas não é o nome d'este afortunado que a historia commemora; não é a Sebastião de Elcano que a sciencia venera e agradece os beneficios que lhe legou, e sim a Fernão de Magalhães, porque foi elle que lidou para obter os navios em que devia fazer a travessia dos mares, e com que custo o conseguiu elle! foi Magalhães que dirigiu os mareantes e os reduziu á obediencia tantas vezes quantas contra elle tentaram revoltar-se; foi elle que affrontou a resistencia dos{144} homens e a furia dos elementos; que, zombou das tempestades e jogou a vida quando, todos e tudo conspirava contra ella, e levou avante a sua idéa, incutindo animo quando todos desfalleciam, e assim chegou ao fim, circumnavegando os mares, passando de um mar ao outro, sem outro guia que os seus proprios calculos, deixando ao mundo aberta a passagem para o mar do sul, passagem que nenhum navegador antes d'elle lograra encontrar.
É de Fernão de Magalhães a gloria; foi este portuguez que deixou o nome seu memorado nos mares do novo mundo, como nas cartas geographicas está gravado; e não bastando isto, o nome do grande portuguez elevou-se ao espaço infinito e com elle marcou nos ares duas bellas nebulosas que são conhecidas por nuvens de Magalhães.
Duradoura gloria esta que viverá tanto como o mundo. Nos mares e nos céos o nome de Fernão de Magalhães!
Diz John Herschel, em uma carta datada do Cabo da Boa Esperança, em 13 de junho de 1836:[[14]] «As nuvens de Magalhães, nubecula major e nubecula minor, são muito notaveis. A maior compõe-se de acervos estellares irregularmente dispostos, de outros{145} acervos esphericos e de estrellas nebulosas entremeadas de nebulosas irreductiveis. Estas ultimas parecem formadas por uma poeira estellar. O proprio telescopio de 20 pés não tem bastante poder para as revelar estrellas.
«Aquellas nebulosas produzem uma claridade geral que illumina o espaço da visão e estabelece um fundo esplendoroso em que se distingue tudo que n'elle está disseminado. Nenhuma outra região celeste junta tantas nebulosas e acervos estellares em egual espaço.
«A nubecula minor é menos formosa; offerece numero maior de nebulosidades irreductiveis, e os acervos estellares que se vêem são mais escassos e menos brilhantes.»
A. de Humboldt, falando d'estas nuvens, diz:[[15]] «das duas nuvens de Magalhães que giram em volta do polo austral, d'este polo tão despovoado de estrellas que podia chamar-se uma região devastada, a maior, principalmente, parece, conforme investigações modernas, uma quantiosa accumulação de acervos esphericos de estrellas de maior ou menor grandeza e de nebulosidades irreductiveis. O aspecto d'estas nuvens, a esplendorosa constellação do navio Argos, a via lactea que se vai dilatando entre o Escorpião, o{146} Centauro, e o Cruzeiro tambem, não tenho duvida em dizel-o, o aspecto pittoresco de todo o céo austral produziu em minha alma uma inolvidavel impressão.»
André Corsali fala da existencia d'estas nuvens, na sua Viagem a Cochim, e Pedro Martyr de Anghiera tambem, no seu livro De Rebus Oceanicis et Orbe Novo; o illustre secretario de D. Fernando de Aragão, attribuindo aos portuguezes o descobrimento d'estas nuvens, diz: Assecuti sunt portucalenses alterius poli gradum quinquagesimum amplius ubi punctum circumeuntes quas dam nubeculas licet intueri veluti in lactea via sparsos fulgores per universi cœli globum intra spatii latitudinem.[[16]]