Quantas vezes os ferros de el-rei arroxearam os pulsos dos seus melhores servidores; quantas o desgosto matou homens a quem a posteridade tem levantado monumentos!

N'este labyrinto da Historia, que os historiadores nem sempre tem podido espurgar das paixões, quão difficil é apreciar com justiça o caracter dos homens que n'ella mais preponderam por suas acções e influencia.

É n'esta difficuldade que nos encontrâmos para definir nitidamente o caracter de Fernão de Magalhães, avaliando as rasões que o levaram a deixar a patria e o serviço do seu rei, pelo serviço do imperador das Hespanhas, por um paiz que era o emulo de Portugal, nas conquistas e descobertas.

É fóra de duvida que Fernão de Magalhães deveria ter um caracter independente{21} e ousado, porque outro não se compadecia com o seu espirito aventuroso; que esse caracter não seria facilmente maleavel como não se amoldaria ás adulações e hypocrisias da côrte, parece seguro; mas viria só d'isto o desagrado em que cahiu para com el-rei D. Manuel?

Seria Fernão de Magalhães mais ambicioso que outros, o que não é para admirar, visto que o seu espirito se dilatava tanto pelo que outros não viam, e essa ambição miraria mais á gloria do que ao interesse material? Qualquer das duas seria o bastante para o malquistar com os camaradas e com os cortezãos.

É certo que um dos motivos de desgosto de Magalhães foi el-rei desattender-lhe o pedido de augmento de pensão, ao voltar de Azamor, onde combatera valentemente contra os moiros ao lado de João Soares e onde fôra ferido em uma perna, de que ficou coxeando; mas se o augmento pouco valia monetariamente, sobrava-lhe em importancia moral porque, como diz Faria e Sousa, na Asia Portugueza: «Subir cinco reaes em dinheiro, é subir muitos graus em qualidade», e Lafitau na Europa Portugueza: «... crescer aqui um real é crescer muito em opinião».{22}
{23}

IV

Quando isto succedeu já Fernão de Magalhães havia illustrado o seu nome em Africa, tendo feito parte de tres expedições, que de Lisboa partiram para aquelles paizes.

A primeira d'essas expedições foi a de 25 de março de 1505, sob o commando de D. Francisco d'Almeida. N'ella se alistou Fernão de Magalhães, contando 25 annos de idade, pois, segundo parece, nascera pelos annos de 1480,[[1]] deixando os commodos da côrte, onde, segundo diz Argenzola, na{24} Historia de las Malucas e Anales de Aragon, era pagem da rainha D. Leonor e d'el-rei D. Manuel. Preparou-se Magalhães, tanto com as coisas espirituaes como materiaes, para a perigosa viagem, conforme o costume dos tempos. Confessou-se e sacramentou-se e fez testamento, em Belem, a 19 de dezembro de 1504, em que transparece o animo com que o testador se achava para as grandes emprezas, pois recommenda n'aquelle documento—segundo dá fé Diego de Barros Arana, na Vida e Viagens de Fernão de Magalhães,[[2]]—a sua irmã D. Thereza de Magalhães, que institue herdeira do seu patrimonio como parente mais proximo, casada com João da Silva Telles, gentilhomem da côrte e senhor do castello de Pereira de Sabrosa, que transmitta o seu appellido juntamente com o seu brazão d'armas a seus herdeiros.

Em 1508 encontrava-se já Fernão de Magalhães em Lisboa de volta d'aquella viagem. Havia tomado parte com Nuno Vaz Pereira nas guerras da Costa Oriental da Africa para submetter aquelles povos á soberania de Portugal, como era necessario para a submissão das possessões da India.{25}