ESTATUA
Cancei-me de tentar o teu segrêdo:
No teu olhar sem côr,—frio escalpello,—
O meu olhar quebrei, a debate-lo,
Como a onda na crista d'um rochêdo.
Segrêdo d'essa alma e meu degrêdo
E minha obcessão! Para bebe-lo
Fui teu labio oscular, n'um pesadêlo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu osculo ardente, allucinado,
Esfriou sobre o marmore correcto
D'esse entreaberto labio gelado…
D'esse labio de marmore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Serêno como um pélago quieto.
PHONOGRAPHO
Vae declamando um comico defunto,
Uma platêa ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E ha um odôr no ambiente
A crypta e a pó,—do anachronico assumpto.
Muda o registo, eis uma barcarola:
Lirios, lirios, aguas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu fluctua
Sobre um paúl,—extática corolla.
Muda outra vez: gorgeios, estribilhos
D'um clarim de oiro—o cheiro de junquilhos,
Vivido e agro!—tocando a alvorada…
Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que effluvio de violetas!