—Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de Deus; logo: Deus é pai do diabo.

Distinguo!—contrariou o varatojano.

E o vigario, sem attender á interrupção escolastica:

—Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo?

Distinguo!—insistiu o varatojano apoiado nas velhas formulas da dialectica esmagadora—Deus creou os anjos; d'estes houve alguns que se rebellaram contra o seu creador, e foram precipitados do céo: são os espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos não desceram ás trevas inferiores, e permanecem para flagello do genero humano no ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer dœmonibus usque in diem judicii, diz S. Agostinho. Deus permitte que os demonios vexem as creaturas, pelo bem que póde resultar ás creaturas d'esse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João: Omnia per ipsum facta sunt. Por tanto, Deus permitte o mal? logo: este mal é bom, por que Deus é o Summo Bem. Verdade é que os males não são bens...

—Ia eu dizer...—atalhou o padre Osorio; ao que o missionario acudiu prestes e victoriosamente:

—Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz: Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine bono. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; id est, permitte o demonio como exercitação saudavel do genero humano. Melius judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi resulta.» Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos Angelos propler bona quæ ex eis elicit. São doze as causas por que Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro atormentado; segunda...

—Estou convencido, snr. frei João—atalhou o vigario,—vossa reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso que Deus permitte demonios flagellantes para depurar com elles os peccadores,—uns e outros creaturas da sua divina justiça.

—É isso mesmo.

—O espirito do máo homem—do peccador que é em si um demonio interno, depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos creaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as mortificações como caricias. Rico pai!—E accrescentou com amargura:—Ah! meu frei João, receio muito que as superstições venham a desabar o catholicismo que deve a sua existencia á victoria que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.