Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no tecto.
—Pois é isso...—atalhava o varatojano.
—É isso quê, snr. frei João?—perguntava o marido.
O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o latim—uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma duvida a pôr.
—Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o vigario.—Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz soffrer a pobre Martha...
—O diabo, filho de Deus!—interrompeu o varatojano, levando as mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma blasfemia enorme... Santo nome de Jesus! O diabo filho de Deus! Anathema!
—Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!—contraveio sereno e risonho o outro.
—A logica? a logica de Calvino, de Voltaire.
—Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario bracharense. Creador não é pai?
—É sim, e d'ahi?