As corôas, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas no tamanho e na nomenclatura: as seraphicas com sete mysterios, e cada mysterio com dez Ave-Marias; as da S. da Conceição com doze Aves e tres mysterios:—uma certa conta que os missionarios lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se aguentavam com os Rosarios de quinze mysterios, e a Corôa dos nove coros dos Anjos, e a do Preciosissimo sangue e coração de Jesus. Mas o grande consumo era de contas de azeviche, refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.

Martha, a beata, a senhora brazileira de Prazins, como lhe chamavam as regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o Peccador convertido ao caminho da verdade, edição do seu confessor varatojano, fr. João de Borba da Montanha.

São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante, suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia, solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades, reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no Peccador convertido, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado Resistencia ás tentações contra a castidade. Fortalecia esta hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado, fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia, a Resistencia ás tentações contra a castidade.

A oração dizia assim:

Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes? Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro, desfalleço, se vos não acho.

Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso, são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo, bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta, nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo, se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente, lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza, que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes, celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale, porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel. Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor...

Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um arrobamento de preghiera. Aquelles dizeres, alinhavados pelo varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do poema dramatico da Sulamita no «Cantico dos Canticos»—os trêchos mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades. D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne.

Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser tangivel, o seu unico termo de comparação—o José Dias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade. Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações voluptuosas da sua alma e do seu corpo.

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