Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio dos pinhaes e carvalheiras.
O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes—uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de juizo!
O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas, aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo.
—Ó alma do diabo!—dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a arma com zagalotes para lhe atirar.—Vou matar aquelle pato bravo!
E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:
—Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle tem á espada! Aquillo é que é!
A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e, vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!»
Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido.
Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a lamina da espada nos ossos dos malhados.
Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se môva—como dizia o frade de Barrimáo.