[1]Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho que a pag. 254-255 dos seus Apontamentos para a Historia contemporanea, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de Lisboa da commissão alimenticia, 1.000 francos mensaes que com toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente lhe manda o duque de Modena e 6.000 francos do imperador Fernando d'Austria, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a 400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia domestica." Chegando apenas para a despeza domestica de D. Miguel, 72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.
[IV]
Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel estava no seu reino, e—o que mais era—muito perto d'alli. Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S. Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarcha legitimo—explicava. O major Bezerra era commendador da ordem e conhecia a cifra:—que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai:
—Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda...
O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho, muita aguardente, e desatou a berrar o Rei-chegou.
O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou:
—Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!
Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o perdeu de vista, murmurou:—Valha-te o diabo, banaboia!
O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal empregado!—que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás caldas de Vizella á bomba quente.