Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidencias:—que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,—que o mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro, O fidalgo recusou:—que não estava auctorisado a receber donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.
A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita. Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S. Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos Antonio de Faria Rebello.[2] Que pouquissimas pessoas o tinham visto, porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exercito carlista, outros de Inglaterra.
Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que accrescentou:—e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes tu?—rematou o morgado—aqui anda marosca. O que tratam é de se abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo Christovão é um asno chapado.
—Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino—aconselhou o egresso—que digam alguma coisa.
Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu throno usurpado.
—Deixa-te de asneiras, Zeferino—dizia o fidalgo ao afilhado com as cartas na mão—el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem caia com uma de X para o alevantamento que é uma comedella.
O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha de burros em feira:
—Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda.
—O Cerveira Lobo! olha que borrachão!—disse o frade.
—Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle—accrescentou o morgado.