E ella:

—Mais nojo me fazem as borracheiras de você!

E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á garrafeira.

D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle. Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de Loulé.

Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o saudavam;—Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!—Tenha v. s.ª muito boas tardes, snr. morgado!—E elle, almofaçando as barbas conspurcadas de vomito:—Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo; que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os quadris, o grande coldre!—As cachopas não respondiam; safavam-se com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas commentavam:—Que levasse o diabo o piteireiro do fidalgo!—que a fidalga fizera bem era se pisgar com o doutor dos Pombaes.—Quer não—contrariava uma lavradeira idosa—foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças! uma desgraça! Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao confêsso nem sabem a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se enfeitava para o estudante das Quintans que andava por lá feito caçador, e que o morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que desgraça, ó môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha tempos na taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o! E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava sempre cheia de frades das ordens ricas...

—Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de frades de ordens ricas—dizia o José Dias de Villalva.—Muito cheias de frades aquellas fidalgas, hein?

—Ahi vens tu com as tuas alicantinas—retrucava, pronostica e solemne, a tia Rosa de Carude.—É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas d'hoje em dia presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos... Isto agora é que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e creavam os seus filhos.

—Os filhos dos frades?—perguntava o Dias.

—Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti! Ainda bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo.

A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude, toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, que mettia em casa—uma diversão á embriaguez, quando não exercia as duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada amiga.