Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em 38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem fazia prosa na Gazeta litteraria do Porto,—scenas dramaticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.
A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez eburnea, esmaecida, airs évaporés, um sorriso nobre de ironia rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza, ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;—que, se não fosse isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em se matar, mas...
—Os filhinhos...—atalhou Adolpho sentimentalmente.
—Não, snr.—acudiu a dama de Carlota Joaquina—não são os filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida—a aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa.
Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos.
—Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!—dizia Adolpho á irmã.—Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a existencia?
Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães.
D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.
—Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella, requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao casal.—Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como se, depois de declamar uma Contemplação de Lamartine, tivesse de recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse.
D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José. Andava nos trinta a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne. O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a e dirigil-a na separação do marido por justiça.