O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca—e conhecia até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios de religião, estragado por essas nações.

D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai! Pariz!—exclamava—Se eu então me passaria pela mente que havia de vir de Pariz para Amarante!

—Elle porta-se muito serio—dizia D. Andreza ao padre Rocha. Ella é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?

—Acho, acho...—confirmava o capellão.—D'aqui rebenta coisa, minha senhora; rebenta, v. ex.ª verá...

E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do sol nascente.

Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite, partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo, com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo.

[2]Como seria de máo gosto inventar este episodio, imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido, com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo—D. Miguel, as revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a confiança.

Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria, preparando as suas Memorias, que devem esclarecer as obscuridades originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta: Eu apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso accrescentar...[3]

[3]Carta de 11 de novembro de 1882.