E o real senhor:
—Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer homem.
—Credo! faz muita differença ... mesmo muita...
Ella descobriu a travessa a rir-se:
—Vossa magestade diz que gosta...
—Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a dizer—comei-me.
E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra.
Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto, porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos—capellão-mór d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães.
A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia particularmente ao abbade:—Este senhor, pelo que come, parece que tem passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha n'aquelle bandulho!—e dizia que lhe dava vontade de chorar, lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade contava que lêra no Deus o quer, do visconde de Arlincourt, que o snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade aquillo—que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que elle rejeitara.
Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S. magestade barrava-as de manteiga nacional,—preferia a manteiga do seu paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé do porco nas tripas tambem portuguezas—tudo do seu paiz. Que rei, que patriota!—meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça.