No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de fumo que se espiralavam até ao tecto.
A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho:
—Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles.
—O...?
—Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde....
—Que suba.
O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva.
A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:—Ó coisa! Mal diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!
E a outra, benzendo-se:—Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros, e por signal que nunca m'os pagou!
—Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem! Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul.