O Bezerra perguntou ao Zeferino.

—Que soubesse sua Magestade, disse o pedreiro, mais animado, que o fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e tres raparigas, uma já casada; mas que a fidalga, a mulher d'elle, aqui ha annos atraz, tinha fugido com o doutor dos Pombaes, e nunca mais voltára.

—Desgraças!—disse o capelão-mór—desgraças! A corrupção dos tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se lhe ha-de dar.

Fez-se um silencio condolente. Todos sentiam o caso infausto.

O rei continuava a escrever, de vagar, pulindo a frase, boleando os periodos; achava difficuldades em se medir com as locuções redondas e muito adjectivadas da rethorica do padre Rocha. Animava-o, porém, a idéa de que D. Miguel não tinha fama de sabio, e que a sua carta seria mais verosimil com alguns aleijões grammaticaes.

Releu a carta, e accrescentou ás virgulas. Pediu obreia ao Munes. Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, cuidadosamente recortada.

O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua magestade dobrou em quatro a folha do almaço e sobrescriptou—Ao conde de Quadros, general do Exercito real.

N'esta occasião, o Christovão Bezerra chamou de parte o Nunes, fallou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: «se for do agrado de sua magestade.»

—Eu vou fallar a el-rei—disse Nunes com satisfatoria condescendencia.

Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco inclinado, e fallou-lhe baixo.