—Sim—respondeu o monarcha.

—Está servido, snr. barão—communicou o secretario, e foi registar no livro das mercês, proferindo em voz alta: Sua magestade há por bem nomear sargento-mór das Lamellas Zeferino Ferreira, em attenção aos serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira.

—Vá agradecer a el-rei, snr. sargento-mór—disse o barão de Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.

—Levante-se, amigo—disse o principe.—Aqui tem a resposta da carta do meu amigo Cerveira Lobo. É necessario que ninguem veja este sobrescripto. Tome sentido, que ninguem saiba a quem esta carta é dirigida. Vá com Deus, e estimarei vêl-o aqui, snr. sargento-mór, com outra carta do meu honrado amigo, emquanto não posso abraçá-lo pessoalmente. Adeus.

A côrte sahiu em recuansos, dando-se mutuos encontrões para não voltarem as costas á magestade.

A creada appareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a cela prompta, e que o frango com arroz não esperava—que era preciso comêl-o logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Geava sempre com el-rei e com o abbade.

O Zeferino, que tinha ali a egua e conhecia o caminho, não quiz ir pernoitar a Santa Martha de Bouro. Havia luar e sahia um rancho de romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao outro dia de tarde apeava no sonoro pateo da casa de Quadros por onde entrára com a egua em grande estropeada, com a cara escandecida n'uma congestão de jubilo.

O Cerveira estava a dormir a sesta.

—Apanhou-a hoje d'aquella casta! Como um cacho!—informou um caseiro.—Mandou apparelhar a poldra castanha do snr. Egas, com os coldres das pistolas, escanchou-se na sella, com a espada desembainhada e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: «Avança, dragões! carrega, esquadrão!» Eu estava a vêr quando o levava a breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como um dez!... Depois o snr. Egas e mais o snr. Heitor lá o apearam como puderam, e foram-n'o pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez por outra apanhe um pifão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é muito feio! E depois ninguem se entende com elle. Medra com o suor dos pobres. Um fona. Que vá para o diabo, que o carregue. Tanto se me dá como se me deu. Se me mandar embora, boas noutes. Não é capaz de perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o matto e os pinheiros, uma vergonha, porque elle, a dois homens gastadores, que tem amigas, uma a cada canto, dá cada mez vinte pintos para os dois! O homem deve ter muita somma de peças enterradas! Qualquer dia cae-lhe ahi em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até elle pôr ali o dinheiro á vista. Diz que quer comprar mais terras, e aqui ha dias offereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião. Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco réis que são cinco réis á filha, á D. Therezinha que casou com o estudante das Quintans. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o serviço da cozinha. E estão ahi as outras duas, que parecem umas fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noute por esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem paredes para se irem metter com ellas na casa do palheiro. Uma vergonha, mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha, uma toupeira. Deus nos livre de bebedos! Deus nos livre de bebedos! Você bem sabe o que isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco que aturar a seu pai que tambem as agarra muito profeitas! Olhe você como elle se tolheu quando foi, dia de natal, dar fogo aos de S. Thyrso! Aquillo só com meio almude no bucho!

—Não é tanto assim—atalhou o sargento-mór de Lamellas.—Não lhe digo que meu pai não tivesse algum graieiro na aza; mas o que elle fez não era você capaz de o fazer, tio Manoel.