—Ah! isso não, bem o póde dizer, mestre Zeferino. Nunca me emborrachei, aqui onde me vê com cincoenta annos já feitos; mas, se algum dia me emborrachar, que ninguem está livre d'isso, prego-me a dormir e não vou atirar-me ao Ave em dezembro! ágora vou, se Deus quizer. Vai-se pôr o alma do diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual Miguel nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier ha-de fazer tanto caso de seu pai como eu d'aquella bosta que ali está. O que elle devia era tratar de conservar os terrões, e fazer como você que se pôz a trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta das terras. E d'ahi? Você hoje tem o seu par de mel cruzados, ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou não é?
—Isso acabou—respondeu com desdem, irritado.—Agora não a queria nem que elle a dotasse com tres contos; entenda você o que lh'eu digo, tio Manoel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas brevemente o saberá. Pouco ha-de viver quem o não vir.
—Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem capazorio, honrado...
—Quero cá dizer outra, coisa... Você não entende... E Ouvindo abrir uma janella—lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir.
E afastando-se do caseiro, ia dizendo comsigo:
—Que tal está o labroste! Um homem vem de fallar com el-rei, e topa com uma cavalgadura d'estas! Canalha ordinaria!...
[VIII]
Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o sobrescripto com estranheza, e disse que a carta não era para elle; e lia: Ao conde de Quadros, general da exercito real.—Isto que diabo é?
—É isso mesmo, fidalgo; isso que ahi está vi-o eu com estes olhos escrever el-rei o snr. D. Miguel, hontem á noute, das nove para as dez. O snr. conde é vossa exccellencia mesmo, e eu sou sargento-mór das Lamellas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi despachado coronel por el-rei.