—O teu pai?! coronel!...

—É como diz.

—Ora essa! ... coronel! caramba!—disse despeitado; parecia-lhe iniqua a promoção; mas occorreram-lhe os velhos caprichos analogos d'el-rei; as injustiças d'algumas patentes superiores desde 1828 até á convenção. E abriu a carta com moderado enthusiasmo. Parecia que a sua razão immergida, restaurada depois de duas horas bem roncadas, de papo acima, queria duvidar da authenticidade de um D. Miguel que fazia sargento-mór um pedreiro, e coronel um reles alferes que passára das milicias de Barcellos para infanteria. Achava natural e plausivel em si as charlateiras de general e a corôa de conde; mas as mercês feitas aos dous plebeus... Caramba!—Uma intermittencia de juizo. Emfim, abrira a carta e lêra para si com uma custosa interpretação, ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.

A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, illuminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um snr. D. Miguel authentico, o auctor da carta. Conhecia-lhe a lettra. Lembrava-se muito bem; era assim; e então a assignatura—Miguel, Rei—era tal qual. Chegou a um certo periodo que devia impressional-o mais pela mudança subita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente a carta.

O Zeferino esperava a confidencia do contheudo; mas o fidalgo, apesar da nobilitação do sargento-mór, continuava a consideral-o o pedreiro que lhe fizera os canastros e reconstruira as paredes da cozinha. Não estava assaz bebedo para confidencias.—Conta lá o que te aconteceu, Zeferino—e sentando-se, metteu o saca-rolhas á botija de Hollanda.

O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do rei, as barbas que mettiam respeito: pausava como elle os dizeres, dando ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu, peorados na fórma, os elogios que o snr. D. Miguel fizera ao seu amigo Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros tinha filhos.

O fidalgo sentia muita sêde. Misturava de meias a genebra com agua assucarada. E ao passo que lhe'sorriam as alvoradas do seu mundo phantastico, e as trevas da razão se desteciam, crescia-lhe o interesse na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não havia já no seu espirito passageira sombra de duvida. Era o seu amigo D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se elle fizera coronel o plebeu das Lamellas e sargento-mór o pedreiro, foi decerto com a intenção de o obsequiar a elle, para lhe mostrar com que prazer recebera a sua carta.

—Sua magestade disse-me que estimava lá vêr-me com outra carta do snr. conde, emquanto não ia lá abraçal-o—esclareceu Zeferino.

—Tens de lá ir amanhã. Apparece cêdo.

—Prompto, senhor.