Vm.cê conhece-a?
—Não conheço.
—É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.
—Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
—Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho. Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem.
Interrompi com interesse de artista:
—Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?
—Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos estudos e sabe todas essas trapalhadas.—E n'um tom de noticia festival:—Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?
—Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson, escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora!