Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com elle uma indagação de curiosidades sentimentaes.

Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado. Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.

Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço—casos que a pobre Natureza e o periodico chamado Esculapio só de per si não poderiam explicar.

O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes, sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, accrescentou:—Deus fez o supremo milagre da sciencia para centuplicar as forças á natureza enfraquecida.—O theologo enrugou scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:—O snr. reitor foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor.—O reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o pulpito.

Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se? perguntei.

—Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador?

Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas recordações, disse:

—Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O meu pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr, é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra, afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna aureola a sua phantastica Virginia.

—Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do que isto...

O cura interrompeu:—Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas, não encontrára caso imitante.—E, dando-me o bilhete de Martha: Este quarto de papel é o exordio de uma agonia original.