—Leia e verá. É d'elle mesmo. Conheço a assignatura muito bem. Tal qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?—perguntava com a botija inclinada sobre o calice.

—Muito obrigado a v. ex.a. Tenho de dizer a missa á snr.ª D. Andreza ás dez horas.

—Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito soffrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta escripta p'ráhi á tôa, hein? Bem diz a Nação que elle andava a estudar lá por fóra.

—Se dá licença, leio—interrompeu o padre com impaciencia curiosa.

—Vá lá!—e puxou a cadeira e a botija para junto do capellão.

Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta.

—Hein?—interrompeu o Cerveira.

—Muito bem—e proseguiu lendo:

Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me acompanhou nas alegrias da minha mocidade.

—Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tinhamos feito pandegas rasgadas quando éramos rapazes?