—Foi assim!—exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. O Saldanha era meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me chamar á sua presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha espada; e eu (batia duramente no peito com as mãos ambas) eu, padre, eu, aqui onde me vê, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as profundas dos infernos; que a minha espada tinha-m'a dado o snr. D. Miguel I e que elle me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos; e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me estupido. E eu, vai não vai, estive a mandal-o...

Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.

—Ande lá.

Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos como vós, bem poucos, mas que valem um reino.

—Torne a lêr esse bocado que é cousa muito profunda, ó padre Rocha.

Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambem admirava, e de si comsigo dizia que o rei tinha bom palavriado sentimental, ou que o impostor não era qualquer pedaço de asno. Continuou:

Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar, comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria.

Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo; mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de maio de 1845.

Miguel, Rey.

Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha. Quando o Cerveira lhe perguntou:—que tal? o que dizia elle?—dobrava a carta vagarosamente, encolhia os hombros e respondia:—Em fim ... não sei...

—Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro isso levo. Pudéra não! Tudo o que eu tiver até á camisa do corpo. Ou se é amigo ou não se é amigo, hein? Que diz a isto, padre?

—Se quem escreveu esta carta é o snr. D. Miguel, faz v. exc.ª o que deve porque faz o que póde; mas seria bom ter a certeza...