—De que é o rei que me escreve?
—Sim ... a prudencia... Ha muito maroto por esse mundo.
—O padre está então a lêr! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem o vêr? Hei-de vêl-o com estes, e ou vil-o fallar primeiro. Mas deixe-se d'asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no céo como elle estar em Calvos.
—Bem!—atalhou o Rocha apressado, erguendo-se—quando vai v. exc.ª a Calvos?
—Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no sabbado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou beijar-lhe a mão e levar-lhe os tres contos. Se faz favor, escreva-me ahi duas linhas, só duas linhas, a dizer isto.
O padre escreveu, e sahiu muito preoccupado. Celebrou a missa a D. Andreza, e pediu-lhe licença para se ausentar por tres dias. Relatou á fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre idiota de alguma cilada á sua imbecilidade, e talvez de um roubo á mão armada.
—Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o dinheiro?—reflectia D. Andreza, discreta e sensibilisada.
—É o que eu vou saber.