—Abra! abra! se não vai dentro a porta!
O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada.
—Que é?—regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito offegante.
—Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa magestade na adega antes que arrombem a porta.
As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro, muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua Mãe Santissima e a alma da tia Jacintra do Reimundles que estava inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender; enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao Bom Jesus do Monte e ao martyle São Trocatles, se os livrassem d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O abbade muito afflicto:
—Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor!
O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as, cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se escancaravam com estridor.
Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente os quartos e recantos.
—Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, o Pilula do 8,—queremos o rei e algumas botijas de genebra. A garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr. D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude.
—O snr. está a mangar!—disse o abbade afinando pelo tom da chalaça.—Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.