O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros: Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.[6]
Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai chamavam-lhe o Norberto das facadas, quando já era velho, e meirinho geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunha facadas lhe vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola.
Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa, concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle fazia n'uma toada monotona de quem reza.[7]
O Verissimo era Mesquita pela mãe, que não conhecera. Tambem florira da cêpa illustre dos Mesquitas de Villar de Maçada; mas o Norberto, achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso.
Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e, apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado pelo desaire de coxear.
Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo, onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença, arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma cidade.
O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar.
A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites, n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca. Mandava cantar Te-Deum na egreja de Alvações assim que no paiz vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os realistas, a contar por cada Te-Deum de Alvações, entravam no Porto ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra. D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques voltára a casaca.
Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado. Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira. Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos, tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis; um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas. Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma.
D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;—que seu sexto avô tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas.